Pinan nidan

Técnica
  • Primeiro movimento: mantenha o centro do meu universo. Heaven, earth, man. Corpo gira ligeiramente para fora
  • Atenção com a técnica do gedan barai (ver detalhes sobre a técnica aqui)
  • Atenção com envergar e desenvergar em todos os movimentos
O que eu geralmente faço errado, ou o que eu preciso corrigir

Não se curvar para frente ao fazer os movimentos onde eu viro (mawate). Tenho feito isso com frequência!

Junzuki no tsukkomi

Técnica
  • Alcance LONGO! Não se esquecer
  • Calcanhar do pé de trás gira 90 graus (o giro de fato ocorre no meio do pé)
  • Ao andar para frente, envergue o tornozelo levemente. Sensei Nash me ensinou um exercício onde envergamos o tornozelo e saímos andando. Esta envergadura gera o momentum para o movimento, como se você estivesse andando normalmente
  • Pés:
    • Pé da frente: reto
    • Pé de trás em 90 graus; o calcanhar começa polegadas de distância da linha do pé da frente
Exercícios para aprimorar

Exercício com três passos:

  1. Ande para frente até que seus pés estejam juntos
  2. Mova o pé um pouco para frente, lembrando de manter os dois pés retos e com a postura correta
  3. Quando mover para frente, desenvergar a perna traseira, enviando energia para o braço; endireite os pés ao mesmo tempo
O que eu geralmente faço errado
  • Alcance longo; busque o golpe lá longe!
  • Não levante o calcanhar traseiro
  • Na passada, você tem que ser GORDO, espaçoso, para terminar com a perna de trás no lugar correto
  • Na passada, concentre o pé de apoio com o peso no meio do pé, nunca na ponta. Se me concentrar no meio, o pé vai girar da forma correta (no meio do pé, não no calcanhar). Outra forma de pensar nisso é concentrando o giro da perna de trás na ponta de cima do quadril – não pense na ponta do pé
  • Contrua o “frame”: tire a folga do corpo, em especial da perna da frente e do braço de trás (pernas e braços opostos)
  • Quando andar com junkuzi no tsukkomi, dobre levemente o tornozelo da perna da frente para construir momentum. Isso ajuda a tornar o movimento mais correto e evita que eu perca o equilíbrio

Gedan-barai

Técnica
  • Trazer o braço junto do corpo em um Angulo de 90 graus entre o ante-braço e braço
  • Desenvergar enquanto faz o giro; o braço é esticado devido a perna traseira, que desenvergou
Exercícios para aprimorar
  • Fazer yoi de frente
  • Fazer gedan-barai para 45 graus
  • Repetir várias vezes
  • Fazer gedan-barai para 90 graus
  • Repetir várias vezes
  • Fazer gedan-barai para os lados, andando de lado
  • Fazer gedan-barai para 45 graus (atrás) e sair andando
O que eu geralmente faço errado, ou o que eu preciso corrigir
  • Não esquecer de trazer o braço até próximo do corpo (cotovelo encosta no corpo
  • Gire o corpo inteiro

Gyaku-zuki

Técnica
  1. Perna vai para frente
  2. Perna de trás gira (aberta)
  3. Perna de trás desenverga, enviando energia para o soco

Quando sair o soco, não se concentre na mão que dá o soco; ao invés disso, se concentre na mão que puxa o soco. “-Eu não estou nem pensando na mão do soco, só na que puxa” disse o Sensei.

Perna da frente gira (sensação do tecido girando) para fora, mas o joelho não pode se mexer – especialmente para trás

Exercícios para aprimorar
  • Fazer shiko-dachi stance e treinar junzuki para as diagonais. Sempre lembrar de girar o tecido da perna. A perna inversa da mão da frente enverga, a perna do lado da mão do soco desenverga;
  • Dica: pare a rotação quando o corpo estiver virando para frente no gyaku-zuki. Ajuda a assimilar os passos e fazer o movimento com detalhes;
  • Durante o giro, lembre-se que seu corpo não termina 100% para frente:
    • Ande para frente
    • O corpo vai estar em uma posição virado para a diagonal (45 graus) – NÃO VAI ESTAR QUADRADO
    • Para finalizar o movimento, gire o quadril para endireitar o corpo e entregar o soco
O que eu geralmente faço errado, ou o que eu preciso corrigir
  • Não se mover para os lados: você é o centro do seu universo;
  • Construa um quadro no seu corpo para manter maior estabilidade. Este quadro é composto pela perna da frente e braço da frente (perceba que este é o braço do lado oposto ao da perna da frente)

Por que nenhum kata Wado-Ryu tem mae geri jodan?

Ontem estávamos treinando mae geri e o Sensei Nash chamou minha atenção para algo curioso: você já percebeu que nenhum kata Wado-Ryu tem um mae geri jodan?

Diferente de shiai/kumite,  todo movimento em um kata tem o objetivo de atingir a forma perfeita do kihon. A pergunta então é: é possível atingir a posição perfeita do mae geri quando tentamos atingir jodan?

Quando feito corretamente, ao executar o mae geri, seu torso fica reto (como se  seu corpo fosse um pêndulo: cabeça alinhada com sua espinha e quadril) e se movimenta inteiro para frente a fim de aproveitar o momentum do seu movimento

Se tentarmos chutar jodan, é natural que nosso torso se curve para trás. Este movimento faz seu chute perder o momentum e pode até fazer você perder o equilíbrio.

Mae geri jodan
Mae geri jodan: torso se curva para trás

Embora eficiente em uma luta, não é a forma correta para o kihon. Como o kata é tem o objetivo de atingir a forma correta do kihon, e forma correta do mae geri é sempre com seu torso reto, no Wado-Ryu nenhum kata tem chute jodan. Este é o motivo. 

Junzuki

Técnica
  • Corpo reto ao andar
  • Não levante o calcanhar de trás ao andar
  • O soco sai apenas ao desenvergar a perna de trás

Para uma técnica mais apurada:

  • Seu joelho não se meche para os lados (para dentro, nem para fora) – em especial o pé de trás
  • Pense em um prego no meio do pé, prendendo o pé que fica atrás no chão. O meio do pé é o que gira, não deve-se levantar o calcanhar nem a ponta do pé. Imagine um prego bem no meio do pé
Exercícios para aprimorar

Exercício de quatro passos:

  • Ande metade do caminho
  • Mova o pé um pouco para frente e lembre-se de manter a espinha reta
  • Quando fizer isso, lembre-se de colocar o peso na perna de trás e sentir plantando o pé no chão
  • Ande para frente, desenvergue e solte o soco

Outro exercício em três etapas:

  • Envergar a perna da frente e puxando o soco – não se concentre na mão que está dando o soco, isso vai acontecer naturalmente
  • Desenvergar a perna de trás e soltando o soco
  • Repetir os dois exercícios ao mesmo tempo, sem se concentrar muito nas mãos. O soco vai sair rápido e com força se fizer o exercício de envergar-desenvergar corretamente

Isto se aplica para TODO o kihon

  • Junzuki pensando em não mexer os joelhos para os lados (dentro e fora)
  • Pense no prego bem no meio do seu pé
O que eu geralmente faço errado, ou o que eu preciso corrigir
  • Calcanhar levantando
  • Tempo do soco saindo diferente do momento de desenvergar da perna
  • Remover toda a folga do corpo (“estica o elástico”). Ao fazer o junzuki, lembre-se do exercício para “criar um quadro (frame) para estabilidade”. Porque você tem um quadro, a estrutura se mantém durante o exercício.
  • Lembre-se do exercício onde você está na postura de junzuki e o Sensei está tentando te empurrar para o lado; sem o quadro (frame), você cai na hora. Com o quadro (frame), seu corpo envia a energia para sua perna para frente e para o chão

Sonobazuki

Técnica
  • Escápula fica reta, não deve ficar para fora
  • Perna direita envia energia para o braço esquerdo e vice-versa
  • Braços relaxados
  • Mova o quadril, corpo segue junto
  • Quando desenvergar a perna (unbow), não esticar 100%
Exercícios para aprimorar
  • Primeiro: fazer pensando na mão que PUXA o soco;
    • a perna do lado oposto da mão que sai sente o tecido rodando para dentro e desenverga
    • a perna do lado da mão que sai sente o tecido rodando para fora e enverga
  • Segundo: fazer pensando na mão SOCANDO o soco;
    • a perna do lado oposto da mão que sai sente o tecido rodando para dentro e desenverga
    • a perna do lado da mão que sai sente o tecido rodando para fora e enverga
  • Terceiro: praticar com os dois movimentos ao mesmo tempo
  • Praticar movimento da cintura e dos braços provocado pelo envergar-desenvergar APENAS
  • Não se esquecer de heaven-earth-man:
    • da metade do corpo para baixo, devo plantar no chão
    • da metade do corpo para cima, devo crescer e esticar a espinha
    • se sentir “pesado”
  • Corpo esticado – sem folgas (no slack)
  • Segure um soco contra a parede. Tente empurrar e enviar energia contra a parece simplesmente desenvergando a perna do lado inverso. Considere o movimento do quadril e torso juntos. O BRAÇO NÃO SE MOVE DEPOIS DO QUADRIL E TORSO
O que eu geralmente faço errado, ou o que eu preciso corrigir
  • Concentre-se na mão que está puxando, não na que está socando
  • A mão apenas roda quase no momento do impacto
  • Geralmente, meu punho se mexe para cima quando o soco termina. Ele precisa terminar na mesma altura de onde ele começou, sem mexer para cima/baixo ou para os lados

 

Hello, world

“Heaven, earth, man”.

Ouvi isso pela primeira vez há um ano, no meu primeiro encontro com Sensei Nash. Nestes 12 meses, descobri uma esfera completamente nova para treino de artes marciais.

Minha jornada recente no karate começou há 9 anos, mas o interesse nas artes marciais começou antes da minha adolescência, junto com meu irmão, Plínio Rocha.

A semente: wado-kai

Quando eu era criança, adorava ver os filmes de artes marciais com meu irmão. Começou com Karate Kid: o Daniel San era um ídolo máximo (mal sabia eu que o Daniel San era o verdadeiro bully) e considerava Seu Miyagi mais sábio do que o Mestre Yoda (ainda considero). Logo depois, os filmes do Van Damme começaram a aparecer e ele se tornou o novo ídolo máximo.

No começo da década de 1990 eu e meu irmão começamos a treinar Karate. Pertinho de casa, a academia “Wado-Kai” prometia ensinar Judo e Karate, e foi pra lá que fomos. O karate tem várias escolas (estilos) diferentes e esta ensina um estilo chamado “Wado-Ryu“. Pegamos gosto rápido. Nesta época conheci o Sensei Buyo, o filho dele, Tatsuya Buyo, o Sensei Alexandre Pudo, mas quem dava aula para as crianças era o Sensei Carlos Okada (ou simplesmente “Okada”). Ele era incrível: conseguia fazer espacate, chutava como ninguém, era rápido, forte, do jeito que o Van Damme era. Ele fazia aquele chute que é assinatura do Van Damme com um pulo e giro de 360 graus. Definido: Okada era o novo ídolo máximo. Ele chamava eu e o Plínio de “Rocha”: “-Vamos Rocha! Mais rápido!”.

Eu tinha uns 12 anos de idade, o Plínio, 14-15. Aquela febre de criança passou, e larguei o karate na faixa vermelha (chamada de “bordô” na minha escola). O Plínio continuou por um pouco mais, até a faixa azul. Meu foco mudou para música e passei a maior parte do meu tempo livre tocando guitarra, baixo, bateria, estudando e dando aula. Aquele interesse por artes marciais nunca sumiu, no entanto.

Muitos anos depois, o Plínio foi treinar jiu-jitsu. Me lembro do meu irmão me falar sobre um tal evento onde as pessoas lutavam cada entre si, cada um no seu estilo, e assistimos ao UFC 4. Vi o Royce Gracie ganhar do Ken Shamrock (um wrester enorme) de kimono e faixa preta e aquilo foi fantástico. Aquela chama das artes marciais continuava acesa.

Wado-Kai: vida adulta

Em Janeiro de 2010, resolvi voltar ao karate. Não poderia ir em nenhum lugar diferente se não de volta à Wado-Kai. O Sensei Buyo continuava lá, mas por causa da minha agenda eu passei a ter aula com o Sensei José Zacarias e com seu filho, Rodrigo Zacarias. Algumas vezes ao mês, ou quando eu estava fazendo uma maratona para algum exame, eu treinava com Sensei Buyo. Treinei na Wado-Kai de Janeiro de 2010 até Dezembro de 2013 e fiz muitas amizades por lá. Em especial, o Senpai Rodrigo, virou praticamente um irmão para mim. Criei um laço muito forte com as pessoas da Wado-Kai, com os amigos que fiz por lá, e principalmente com o karate. Eu nunca fui um grande atleta: sempre estive fora de forma, não tenho a facilidade de assimilação com esportes que outras pessoas tem. Não é a auto-defesa que me atrai, nem nunca briguei na rua. O que me interessava era a disciplina, o respeito e a busca do desenvolvimento pessoal. O lema da Wado-Kai é:

RESPEITO – SINCERIDADE – RACIONALIDADE – EMPENHO – ESPIRITO DOMADO, HARMONIA E PAZ

O motivo pelo qual eu saí da Wado-Kai em Dezembro de 2013 foi minha mudança para Bruxelas em Fevereiro de 2014. Sair de lá no último treino foi muito doloroso, talvez uma das partes mais dolorosas ao sair do Brasil.

Sensei Buyo, eu, Sensei Zacarias
Meu último dia como aluno da Wado-Kai no Brasil

Saí do Brasil faixa marrom segundo grau (ou 2° “kiu” – em uma escala decrescente que vai de 9 a 1, até chegar na faixa preta).

Hiato

Em Bruxelas, eu não encontrei uma escola de Karate Wado-Ryu. Tinha uma na Bélgica, fora de Bruxelas, que ficava aproximadamente uma hora e meia de distância da minha casa, o que tornava a prática inviável. Encontrei uma escola que ensinava Karate Shotokan e fui lá assistir um treino, mas percebi que os comandos eram dados em Francês. Uma coisa que eu percebi tanto por lá quanto na escola onde eu treinei nos Estados Unidos é que existe esse hábito de dar os comandos no idioma local (Francês e Inglês), enquanto que no Brasil, todos os comandos eram dados em Japonês (com instruções em Português). Eles dizem “roundhouse kick”, “front kick”, “knife block” ao invés de “mawashi geri”, “mae geri”, “shuto uke”. Apenas vi os comandos sendo dado em Japonês para alunos mais graduados. Isso tornaria o meu treinamento em uma escola de idioma Francês muito complicado, então acabei perdendo o ânimo.

Acabei aceitando que não teria como treinar Karate por lá, ao menos até meu Francês se desenvolver bem – o que nunca aconteceu. Fiquei 30 meses sem treinar.

Shotokan nos estados unidos

Em Agosto de 2016, me mudei de Bruxelas para Redmond, uma cidade próxima de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos.

Ainda no fim de 2016, descobri pelo Facebook que um amigo treinava Karate Shotokan próximo do local onde trabalhamos. Fui um dia ver o treino e fiquei bem impressionado com o dojo. Bem espaçoso, iluminado, com espelhos bem grandes e super bem localizado. Os comandos eram dados em Inglês, mas ao contrário de Francês, sou fluente no idioma, então não seria um problema como foi em Bruxelas. A escola se chama Washington Shotokan Association, fundada pelo Sensei Andre Dolce (8° Dan).

Washington Shotokan Association
Washington Shotokan Association

O Karate Wado-Ryu é muito similar do Shotokan – de fato, o fundador do Wado-Ryu, Otsuka Sensei, era instrutor de Shotokan antes de fundar o nosso estilo. Apesar de perceber que eu poderia utilizar todo o meu treino em Wado-Ryu para iniciar meu treino em Shotokan, acabei decidindo começar meu treino na faixa branca. Ensaiei conversar com o Sensei daquele dojo para saber se eu deveria “pular” as graduações deles, mas em conversa com uma professora faixa preta daquela escola, ela me disse que eles geralmente tomam essas decisões depois do primeiro exame, fazendo você treinar por pelo menos quatro meses na faixa branca. Quando chegou o momento, apesar de receber diversos comentários de professores dizendo que eu demonstrava ter tido treinamento anterior, acabei seguindo a graduação normal daquele dojo. Em verdade, eu não tinha nenhum orgulho dentro de mim que me fazia querer avançar rápido, ainda mais pelo fato de eu não ser o atleta mais exemplar da classe. Então preferi nem trazer a conversa para a mesa de novo, também em respeito aos meus novos colegas de dojo. Treinei neste dojo por pouco menos de um ano e fiz dois exames de graduação.

Exame de faixa na WSA
Exame de faixa na WSA

O meu tempo na WSA foi importante por continuar meu treino e fazer novos amigos. Também foi interessante entender as diferenças entre Wado-Ryu e Shotokan, assim como treinar pela primeira vez em um idioma estrangeiro. Sou muito grato pelo curto tempo que passei na WSA.

Sensei Bob Nash

Em Outubro de 2017, viajei ao Brasil em férias para o casamento do meu irmão. Aproveitei para passar na Wado-Kai e rever meus amigos. “-Traga seu kimono”, alertou o Sensei Zacarias pelo Facebook.

Cheguei cedo na academia e tive um longo bate-papo com Sensei Buyo. Neste papo, ele resolveu pegar o seu catálogo de dojos Wado-Ryu para ver se tinha algum lugar para eu continuar o meu treino aqui nos Estados Unidos. Não encontramos nenhum dojo, mas tinha um endereço isolado de uma pessoa em Sammamish, próximo de onde eu moro – possivelmente um professor. Ainda assim, o Sensei Buyo me deu um contato de um professor que ele conheceu poucos meses antes em um congresso, na República Dominicana. Me disse que este professor era o responsável técnico pelo Wado-Ryu nos EUA e que, se alguém soubesse de algo na minha região, este professor saberia. O Sensei Buyo escreveu em um papel:

Bob Nash  (Yoshida)

e-mail: xxxx@gmail.com

Assim que eu voltei para a casa da minha mãe, ainda no Brasil, mandei um e-mail para o Sensei Nash:

Dear Sensei,
 
 I'm a student of Shihan Michizo Buyo from São Paulo, Brazil. I live in Carnation, WA and work in Redmond. During a visit to Brazil, Shihan Buyo found your contact and recommended that I reach out to you.
 
 While in WA, I'm taking Shotokan classes but would rather continue my Wado-ryu training. Are you associated with any Wado-ryu dojo in the region? Are you aware of any dojo in our area?
 
 Thank you for your time.
 
 Oss!
 
 Kindly,
 Peri Rocha

O Sensei Nash respondeu meu e-mail em poucas horas. Sua resposta foi inacreditável:

Call me. XXX XXX XXXX :)
 This weekend we have a seminar in San Francisco:)
 I live in Sammamish.
 
 Bob

A frase chave aqui é “I live in Sammamish” (‘moro em Sammamish’). Eu havia me mudado para uma outra cidade naquele ano chamada Carnation, e Sammamish é uma das cidades vizinhas de Carnation. Em um país do tamanho dos Estados Unidos, a pessoa que o Sensei Buyo me indicou, que é o responsável técnico pelo nosso estilo no país, mora há 20 minutos de distância de onde eu moro. Quais são as chances? No final das contas, o contato que o Sensei Buyo havia encontrado no seu diretório era também, de fato, do Sensei Bob Nash.

Rota de Carnation a Sammamish

Liguei para o Sensei Nash assim que voltei aos Estados Unidos e marcamos um encontro. Me lembro que nesta conversa o Sensei perguntou qual era o meu objetivo ao treinar karate. Eu disse que queria crescer pessoalmente, mas não sou exatamente um atleta olímpico. Sua resposta foi: “-A primeira coisa que temos que entender a nosso respeito é que nós somos ruins [tradução livre de ‘we suck’]. Se partirmos disso, com uma mentalidade de crescimento, é isso que realmente precisamos”. O Sensei Nash pediu para eu levar algo para fazer anotações na aula. Achei interessante, “pelo jeito o cara é um nerd, que nem eu”, pensei. Em inglês, “notebook” pode ser um computador, como chamamos em Português, mas normalmente é usado para blocos de notas, daqueles que você escreve com papel e caneta. Eu levei um computador, mas ele se referia ao bloco de notas, mesmo. Outra coisa que o Sensei me pediu é que eu não fosse aos treinos usando meu kimono (chamado de “Gi” por aqui). “-Venha com uma camiseta e uma calça confortável. Eu preciso ver o movimento dos seus músculos”.

O Sensei Nash não tem um dojo fixo em Washington, ele costuma viajar pelo país e mundo para dar aula. Então ele me recebe em sua casa e faço treinos 1:1 com ele, uma vez por semana. Toda a atenção do professor está em mim, algo muito raro em treinos de artes marciais. Em algumas ocasiões, alunos dele viajam a Seattle e vêm treinar aqui com ele, e nestas ocasiões eu treino com os alunos dele. Os alunos dele são todos bastante avançados (5° ou 6° Dan). O Sensei também é regularmente convidado para dar aulas em uma escola Shotokan aqui perto, e ele tem me convidado a me juntar a ele nestas aulas.

Quando percebi que treinaria de forma fixa com Sensei Nash, cancelei minha matrícula no WSA e agradeci aos professores pelo meu tempo lá.

treinos com Sensei Nash: a cobaia

Os treinos são altamente técnicos e detalhistas. Me lembro bem que uma das primeiras coisas que fiz foi cumprimentar o Sensei e responder ao comando “yoi” (prepare-se). A resposta do Sensei foi: “-Você fez errado”. Antes mesmo de dar o primeiro golpe, o Sensei já estava corrigindo minha postura e técnica.

Mais importante do que progredir de uma faixa para a outra é ter certeza que estamos fazendo os movimentos de forma consciente e correta. O Sensei Nash é extremamente perfeccionista, então nós costumamos investir bastante tempo em coisas muito básicas para ter certeza que a técnica está certa.

No entanto, o que realmente é diferente no treino dele é o tempo que investimos em prática de força interna. O Sensei Nash é tranquilamente um dos “karatecas” mais rápidos e fortes que eu já vi e ele atinge essa força e agilidade através de força interna. A técnica dele deriva de conceitos que vem de relaxamento extremo, até liberação total da força, voltando para o relaxamento, utilizando várias articulações. O conceito é que para um junzuki, a força do soco não vem dos seus músculos frontais (peitoral, ombro, braço, ante-braço), mas sim do pé inverso. Você planta o pé no chão e envia a energia para baixo e, assim como um arco e flecha, suas articulações do tornozelo, joelho, cintura, espinha, ombro e cotovelo se esticam (movimento de soltar uma flecha) e fazem um movimento espiral que soltam a energia para o seu braço. De fato, o que ele menos pensa na hora de fazer junzuki é no seu braço. É uma técnica bastante avançada e o Sensei recentemente me disse que só passa a ensinar isso para quem é 3° Dan, mas ele me usa como cobaia para entender o quão cedo pode começar este tipo de treinamento.

A hipótese dele é: por que esperar até o 3° Dan e ter que corrigir tudo depois, se posso introduzir estes conceitos a um aluno não graduado e ir avançando da forma correta? O problema é que a evolução é mais demorada e, porque estamos investindo tanto tempo nisso, acabamos não treinando tanto kata e outras coisas. Mas em tese, quando eu chegar na faixa preta, estarei muito mais preparado do que a maioria das outras pessoas. Por isso o Sensei me chama de cobaia. Sinceramente? Eu me sinto privilegiado.

Sensei Nash e Peri
Eu com Sensei Nash na Western WA Shotokan Karate Club
porque eu iniciei este blog

Há um ano comecei a treinar com o Sensei Bob Nash e todos os dias eu aprendo detalhes novos dos quais eu nunca ouvi a respeito, mas que me ajudam muito a entender a técnica e evoluir. Desde exercícios para desenvolvimento de força interna, artigos, livros, até dicas para tornar meu kihon e meu kata mais corretos, toda semana eu aprendo algo novo.

O objetivo deste blog é documentar o meu aprendizado para que eu possa revisar sempre a continuar evoluindo meu estudo de karate, assim como compartilhar estes ensinamentos com meus amigos karatecas.